Durante muitos anos, uma das maiores preocupações do ensino superior brasileiro foi ampliar o acesso.
Criamos novas instituições, novos campi, programas de financiamento, políticas de inclusão, cursos noturnos e, principalmente, expandimos a educação a distância.
O resultado apareceu nas matrículas.
Em 2024, o Brasil ultrapassou 10,2 milhões de estudantes matriculados em cursos de graduação, segundo o Censo da Educação Superior. Há dez anos, eram cerca de 7,8 milhões.
Mas existe outro dado que merece tanta atenção quanto o crescimento das matrículas: quantos desses estudantes realmente chegam ao final do curso?
Os números mostram um problema de grandes proporções.
Segundo o 16º Mapa do Ensino Superior no Brasil, publicado em 2026 pelo Instituto Semesp com base nos dados do Inep, a taxa anual de evasão em 2024 chegou a 24,8% nos cursos presenciais.
Na rede privada, foram 26,6%. Na pública, 21,4%.
Na educação a distância, os percentuais foram ainda maiores: 41,6% de evasão, chegando a 41,9% na rede privada e 32,2% na pública.
Isso significa que olhar apenas para a quantidade de novos alunos pode produzir uma visão incompleta do sistema.
Quando acompanhamos os mesmos estudantes, o cenário impressiona ainda mais
O Inep utiliza outro indicador importante: a Taxa de Desistência Acumulada.
Em vez de observar apenas o que aconteceu de um ano para outro, ele acompanha uma mesma geração de estudantes ao longo do tempo.
O Censo da Educação Superior acompanhou aproximadamente 3 milhões de alunos que ingressaram em 2015, distribuídos em milhares de cursos.
Dez anos depois, em 2024, o resultado foi o seguinte:
60% haviam desistido do curso. 39% haviam concluído. 1% ainda permanecia estudando.
Ou seja, de cada dez estudantes que entraram no ensino superior em 2015, aproximadamente seis deixaram o curso antes da conclusão.
E para quem pensa que o problema é muito mais presente nas instituições privadas, os dados provam que não. A situação é muito parecida entre as redes pública e privada.
Entre os ingressantes de 2015, a desistência acumulada chegou a 62% na rede privada e 53% na rede pública. A taxa de conclusão foi de 37% na privada e 44% na pública.
A modalidade ou formato de oferta também faz pouca diferença.
No mesmo período de acompanhamento, a desistência acumulada chegou a 65% na EaD e 59% no presencial. Apenas 34% dos ingressantes da educação a distância haviam concluído o curso ao final do período, contra 40% no presencial.
É importante observar que evasão anual e desistência acumulada são indicadores diferentes. A primeira mostra o movimento de saída em determinado período. A segunda acompanha uma geração de estudantes durante vários anos.
As duas, porém, levam à mesma conclusão: colocar o estudante dentro da instituição está longe de ser suficiente.

Alguns cursos enfrentam uma situação ainda mais preocupante
As licenciaturas são um bom exemplo.
O Inep acompanhou os estudantes que ingressaram nesses cursos em 2015 e verificou a situação deles em 2024.
Em Física, 73% haviam desistido.
Em Matemática, 71%.
Em Filosofia, 69%.
Em Sociologia, 68%.
Em Química, 67%.
História e Língua Estrangeira chegaram a 65%.
Mesmo Pedagogia, que apresentou o menor percentual entre os cursos analisados, registrou 52% de desistência acumulada.
Os números são especialmente preocupantes porque aparecem justamente em áreas nas quais o país discute há anos a falta de professores.
Não basta, portanto, criar vagas em cursos de formação docente. É necessário conseguir transformar ingressantes em professores formados.

E a universidade pública?
Com frequência, a evasão é associada quase exclusivamente à mensalidade ou aos modelos de grande escala da educação privada.
Os dados mostram que a realidade é mais complexa.
Um estudo publicado em 2024 na Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, realizado com estudantes da Faculdade de Ciências da UNESP de Bauru, analisou 3.667 ingressantes entre 2014 e 2020.
Até a data da pesquisa, 36,7% haviam abandonado seus cursos.
Mas as diferenças entre as graduações eram enormes.
Meteorologia apresentou evasão média de 61,5%.
Física, 57,3%.
Matemática, 43,4%.
Educação Física Integral, 37,8%.
Na turma que ingressou em 2014, a evasão chegou a impressionantes 85,4% em Meteorologia, 71,7% em Física e 62,5% em Matemática.
O estudo também mostrou que grande parte das desistências ocorria nos primeiros dois anos. Entre os motivos identificados estavam insatisfação com a escolha profissional, problemas familiares e de saúde, dificuldades financeiras, excesso de aulas teóricas e ausência de novas metodologias de ensino.
É um estudo localizado e, portanto, seus percentuais não podem ser generalizados para todas as universidades públicas. Mas ele mostra algo importante: gratuidade não significa automaticamente permanência.

Talvez estejamos medindo sucesso da maneira errada
Em setembro de 2024, o Tribunal de Contas da União analisou 69 universidades federais e concluiu que faltavam ações e informações estruturadas para enfrentar a evasão, incluindo diagnóstico, definição de objetivos e monitoramento.
O TCU determinou ao Ministério da Educação a elaboração, em conjunto com as universidades, de um plano para uma política nacional de prevenção e redução da evasão universitária.
A discussão importa também para as instituições privadas.
Durante muitos anos, boa parte da competição no ensino superior esteve concentrada em captação: novos alunos, novos polos, novos cursos, bolsas, descontos e campanhas.
Agora um dos principais indicadores de qualidade e sustentabilidade dos próximos anos passa a ser outro: quantos dos alunos que entram conseguem continuar?
Retenção não depende apenas de preço.
Depende de escolha adequada do curso, acolhimento nos primeiros semestres, acompanhamento acadêmico, metodologias de ensino, atendimento, identificação precoce de estudantes em risco, flexibilidade, apoio financeiro e, principalmente, da percepção de que continuar estudando vale o esforço.
E na sua instituição: ainda se acompanha mais de perto a captação ou já se mede a permanência com a mesma atenção?
Fontes utilizadas: Censo da Educação Superior 2024 e Resumo Técnico do Inep; 16º Mapa do Ensino Superior no Brasil 2026, Instituto Semesp; Tribunal de Contas da União, Acórdão 1.868/2024; Hashimoto, Magnoni e Capellini, Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, 2024.
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